07.07.2026
Terça-feira
11.07.2026
Sábado

Božičević, Ivan: The Lens Grinder for flute and tape (2025)
11:00_Museu de Arqueologia
D. Diogo de Sousa

Clamat
21:00_Museu de Arqueologia
D. Diogo de Sousa
Ana Ferraz(fl)
Yiran Zhao (1988 - Ohne Stille [2014/15], Berardinelli, Pedro (1985) dentre [2019], Pinho Vargas, António (1953) Dissolves me Into Geometrics [2025], Gordon, Michael (1956) Loved [2020]
Afonso Primo, Bruno Carvalho, Lourenço Oliveira,
Nuno Aroso, Pedro Leitão, Vitória do Bem, Yi Huang.
A Lente
"O essencial é saber ver." — Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
No Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, lugar onde fragmentos do passado são preservados e reinterpretados, The Lens Grinder de Ivan Božičević propõe uma outra forma de descoberta: não a escavação da matéria, mas a observação do mundo através da escuta.
A obra, escrita para flauta e tape, integra sons de pássaros que atravessam e transformam a paisagem sonora. Estes sons não surgem como simples elementos decorativos; representam uma presença viva da natureza, um contraponto ao espaço construído pelo ser humano e aos vestígios históricos que habitam o museu. Entre a voz da flauta e os cantos das aves desenvolve-se um diálogo que dissolve fronteiras entre o natural e o artificial, entre o passado preservado e o presente em movimento.
Esta relação encontra eco na obra de Fernando Pessoa, particularmente na visão de Alberto Caeiro, para quem a verdadeira compreensão do mundo nasce da observação direta das coisas. Tal como Caeiro encontra na simplicidade da natureza uma forma de revelação, também The Lens Grinder convida o público a escutar sem procurar explicações imediatas, permitindo que os sons se revelem por si próprios.
"O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum." — Fernando Pessoa, através de Alberto Caeiro
A lente sugerida pelo título da obra torna-se uma metáfora para a própria experiência artística. Tal como uma lente altera a nossa perceção da realidade, a música amplia aquilo que habitualmente ignoramos: o canto distante de um pássaro, a ressonância do espaço, o silêncio entre os sons. O concerto propõe um exercício de atenção, uma forma de desacelerar e redescobrir o mundo através da escuta.
No contexto do Museu D. Diogo de Sousa, esta experiência adquire uma dimensão particular. Rodeados por objetos que testemunham civilizações desaparecidas, somos lembrados de que a história humana sempre coexistiu com os ritmos da natureza. Enquanto os artefactos preservam a memória das pessoas, os sons dos pássaros evocam uma continuidade mais antiga e mais vasta, que atravessa gerações e permanece para além do tempo histórico.
Entre arqueologia, poesia e paisagem sonora, este concerto convida-nos a olhar — e sobretudo a escutar — com novos sentidos. Como em Caeiro, a revelação não está escondida; encontra-se diante de nós, no simples ato de ouvir o mundo tal como ele é. Uma experiência de contemplação onde a música, a natureza e a memória convergem num mesmo espaço de descoberta.
Vestígios do Invisível
"Tudo o que vemos esconde outra coisa; queremos sempre ver o que está escondido pelo que vemos." — René Magritte
No Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, um espaço dedicado à descoberta das camadas que constituem a nossa história, o coletivo Clamat apresenta um programa que explora aquilo que existe entre a presença e a ausência, entre o som e o silêncio, entre a matéria e a memória. As obras de Yiran Zhao, Pedro Berardinelli, António Pinho Vargas e Michael Gordon constroem uma paisagem sonora onde cada gesto parece revelar fragmentos de algo maior, simultaneamente próximo e inacessível.
Tal como o arqueólogo interpreta vestígios para reconstruir mundos desaparecidos, também estas obras trabalham sobre fragmentos, ecos e transformações. Os sons surgem, desaparecem e reaparecem sob novas formas, desenhando percursos que convidam o público a escutar não apenas aquilo que é imediatamente audível, mas também aquilo que permanece oculto entre os intervalos e as ressonâncias.
A arquitetura do museu reforça esta ideia de estratificação temporal. Rodeados por objetos que sobreviveram a séculos de história, somos confrontados com diferentes formas de permanência. As peças arqueológicas preservam traços materiais do passado; a música, pelo contrário, existe apenas no instante da sua execução. No entanto, ambas partilham uma mesma capacidade de convocar memórias, sugerir narrativas e despertar a imaginação.
Em Ohne Stille ("Sem Silêncio"), o silêncio não surge como ausência, mas como uma presença ativa que molda a escuta. Em dentre, somos conduzidos para um território intermédio, um espaço de transição entre estados, identidades e perceções. Em Dissolves Me Into Geometrics, criado especialmente para este contexto, as formas sonoras transformam-se continuamente, como se a matéria se reorganizasse diante dos nossos ouvidos. Finalmente, Loved encerra o percurso com uma reflexão sobre proximidade, vulnerabilidade e permanência emocional.
Ao longo do concerto, as obras deixam de ser entendidas como entidades independentes para formar uma única experiência de descoberta. Como diferentes estratos de uma escavação, revelam sucessivas camadas de significado que se acumulam e dialogam entre si.
Neste encontro entre música contemporânea e património arqueológico, o museu transforma-se num lugar de escuta expandida. Um espaço onde o passado não é apenas recordado, mas reimaginado; onde o invisível se torna momentaneamente percetível; e onde cada som se apresenta como um vestígio fugaz de algo que está permanentemente em transformação.
Mais do que um concerto, esta é uma viagem através das camadas da memória, da matéria e da perceção. Um convite a escavar não a terra, mas a própria experiência da escuta.
