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07.07.2026
Terça-feira

08.07.2026
Quarta-feira

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ÅRA / pilgrims of time! With Bach
18.00_ Igreja de S. Marcos​

João Acciaiuoli
Francisco Lima (vl), Fernando Costa (vc).

ÅRA / pilgrims of time!

No início era o silêncio. E o silêncio encarnou numa árvore seca. Erguida sobre um versículo poético numa carta manuscrita. De um pai para o filho. A evocar a ritualidade decisiva do sacrifício de Tarkovsky. No início era uma árvore seca japonesa. Regada todos os dias por uma criança muda. Que desconhecia ser numa pintura inacabada que a árvore seca florescia. Ancorada numa pedra basilar arquétipa. E preces enredadas em cavalos e ruínas. Como se toda a simbologia inscrita na tela dilatasse o princípio radicular do mistério. E fosse o anúncio de micorrizações invisíveis ainda não manifestas. Um anjo num circo em Berlim. Uma paisagem na neblina. Um eixo de dobradiça num pedaço de madeira à deriva. Declinações extáticas da inteireza e do assombro. Com berço em milagres e sincronismos impossíveis. No início era a árvore revelada numa colina. Venerável como um gingko biloba centenário. Que sobreviveu à bomba de Hiroshima. A guiar os peregrinos do tempo. E a persistência das coisas que respiram. E adquirem poderes de estremecer a terra. Como quem risca na memória um posto avançado do visível. Os dias carregados de flamingos. As montanhas imaginárias desenhadas pelas revoadas dos pombos-correio. O nascimento secreto das árvores de tangerina. Que por vezes podem ser anjos de verdade. E andar com naturalidade sobre as águas. A pintura não terminada de Leonardo da Vinci ressurge na orbitação lenta de objetos interestelares. Em torno de um coração que levita. Como corolário de uma relação salvífica extrema. Consumada em Bach maior numa parábola aflita. Encenada na Escandinávia. Para que o presente possa voltar a ser um lugar com futuro. Um Atlas de pedra que perdeu os braços sustenta o mundo com umas asas de anjo providencialmente esculpidas. E mantém suspenso o relógio do apocalipse. Atena transformou-se uma vez mais em coruja. E convocou a roda das árvores antigas. Que velam atentamente o padrão cíclico dos equinócios e dos solstícios. Enquanto Ulisses cumpre religiosamente em Ítaca as indicações que recebeu de Tirésias no submundo. E avança todos os dias para o interior levando consigo um remo. Em que imprimiu a firmeza do bordão dos eremitas. E o hábito cuidador dos apicultores. Para chegar dia após dia à terra das pessoas que nunca ouviram falar do mar. E há sempre alguém com quem se cruza que confunde o remo com uma peneira. Numa espécie de ritual de realinhamento cósmico. Entre o lugar que o remo assinala e o fio que o liga ao infinito. E transmuta a cicatriz do naufrágio num sinal de nascimento. Como se fossem peregrinos que fixaram morada no caminho. E acreditam no futuro das sementes. No início era o silêncio. E o silêncio era o rompimento das águas de um mundo em metamorfose. “Porquê papá?”

 

João Acciaiuoli, junho 2026

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String Quartet in D minor, D.810 Schubert, Franz
21.00_ Palácio do Raio

Carmen Touza

Adam Newman (vla), David Wyn Lloyd (vl),

Nikolai Gimaletdinov (vc), Piotr Rachwał (vl).

A Morte e a Imagem: Um Diálogo em Tempo Real

"A morte não é o fim, mas uma transformação."

No cenário singular do Palácio do Raio, a música e a pintura encontram-se num processo de criação simultânea, onde o som se torna gesto e a imagem nasce do instante. Enquanto o Quarteto de Cordas interpreta A Morte e a Donzela (String Quartet in D minor, D.810) de Franz Schubert, a artista visual Carmen Touza desenvolve uma pintura ao vivo, transformando a intensidade emocional da obra numa expressão visual em permanente construção.

Composta em 1824, num período marcado pela consciência da fragilidade da vida, A Morte e a Donzela é uma das obras mais profundas e inquietantes de Schubert. Inspirada no seu célebre lied homónimo, a composição coloca em diálogo duas forças universais: a vulnerabilidade da existência humana e a inevitabilidade da morte. Ao longo dos seus quatro andamentos, a música percorre territórios de tensão, resistência, serenidade e aceitação, construindo uma narrativa de extraordinária força dramática.

"A arte não reproduz o visível; torna visível." — Paul Klee

Partindo desta ideia, Carmen Touza não procura ilustrar a música, mas responder-lhe. Cada pincelada nasce da escuta, cada forma emerge da energia sonora do momento. A pintura torna-se um organismo vivo, moldado pelas dinâmicas, pelas texturas e pelas emoções que atravessam a interpretação musical. O público assiste simultaneamente à construção de duas obras: uma que existe no tempo através do som e outra que se materializa no espaço através da cor e da matéria.

A criação visual acompanha a intensidade da partitura de Schubert, explorando contrastes entre luz e sombra, permanência e transformação, silêncio e movimento. Tal como a música, a pintura desenvolve-se sem um destino previamente definido, revelando-se gradualmente perante o olhar do espectador.

"Toda a obra de arte é filha do seu tempo e mãe dos nossos sentimentos." — Wassily Kandinsky

Neste encontro entre música e pintura, o Palácio do Raio transforma-se num espaço de diálogo entre disciplinas artísticas, onde a criação acontece diante do público em tempo real. O gesto dos músicos e o gesto da pintora tornam-se parte de uma mesma narrativa, revelando diferentes formas de traduzir emoções universais.

Ao final da performance, permanece não apenas a memória da interpretação musical, mas também a obra visual resultante desse encontro efémero. Uma pintura que conserva os ecos de Schubert e testemunha a beleza irrepetível do momento em que som, imagem e espaço se unem numa única experiência artística.

 

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